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Abro um parentesis para falar de futebol novamente, mas apenas para chegar a um ponto que nada tem a ver com futebol. Paulo Bento demitiu-se do comando técnico do Sporting. Na conferência de imprensa produziu a seguinte afirmação: «estive quatro meses a mais no Sporting.' É dela que faço o meu ponto de partida hoje.
Saber fazer e saber estar são conjugações indispensáveis para qualquer um. A competência, o esforço e a dedicação são palavras básicas de importancia chave em qualquer coisa que façamos. Mas muitas das vezes esquecemo-nos que discernimento também o é. E discernimento é saber fazer o que deve ser feito, no tempo certo, no lugar certo. Ao proferir esta frase, Bento admitiu que faltou discernimento para ver que o seu tempo tinha terminado ali. Repara-se como isto afecta tudo e todos. Afectou a instituição, porque parece estar muito longe dos planos que tinha para esta temporada. Afecta Bento, que ficará ligado para sempre a este início de época sombrio e terrível. Afecta os adeptos, aqueles que veêm de fora, pela descrença e falta de fé e esperança (mesmo que seja numa coisa secundária como o futebol...).
Sabermos qual é o tempo das coisas, o tempo de entrada, o tempo de saída, o tempo de colocar certas decisões em prática, é fundamental. O timing, como lhe chamam os ingleses, pode fazer de uma decisão certa uma atitude errada, quando tomada num momento inadequado. Discernirmos o quando é muitas vezes mais difícil do que discernirmos o como ou o porquê.
Digo estas coisas porque enquanto povo, temos dificuldade nas 'saídas'. É raro ver alguém que consegue ser airoso na saída. É raro ver alguém que é capaz de discernir que o seu tempo, num determinado lugar, terminou. E é triste. É triste ver gente capaz, dedicada e competente, deitar tudo a perder porque não soube quando sair de cena.
'Estive a mais' é uma frase que devemos evitar. E de evitar é também o pânico de sair de determinado lugar. Porque haverá sempre um novo desafio, uma nova luta, assim queiramos e saibamos nós encontrá-los. É porque eles estão aí à espreita a qualquer momento, basta estar atento.
A propósito do Saramgo e das suas afirmações, mais uma vez se veio provar que a Igreja (no geral) e os cristãos continuam a padecer de uma doença crónica, revelada de tempos a tempos: incapacidade de lidar com qualquer tipo de crítica ou ideia diferente. Falta-nos fair-play, falta-nos entrar na era da liberdade de expressão e opinião. Foi por isso que, da última vez que esteve em Portugal, na ocasião do lançamento do projecto 'Um Milhão de Líderes', Marcos Witt proferiu vezes sem conta a ideia de que a Igreja deveria ter mais pastores e líderes e menos ditadores. Há gente que ainda confunde capacidade de liderança com capacidade de manipulação e firmeza com teimosia e incapacidade de ouvir críticas ou opiniões.
Quem me conhece ou lê este blog sabe que gosto de arrasar com a ideia da opinião pela opinião. No meu entender, a opinião deve ter em conta alguns factores: o factor oportunidade, o factor conhecimento, o factor construtivo e o factor humildade. O factor oportunidade porque devemos esperar pela hora certa para dar a nossa opinião. O factor capacidade porque nos devemos limitar a opinar sobre questões sobre as quais tenhamos conhecimento. O factor construtivo porque nos devemos limitar a opinar para construir e nunca para destruir. O factor humildade, porque devemos estar prontos para que a nossa opinião não seja reconhecida como válida. Ora, logo a Igreja, onde opinião é quase sagrada, é que havia de ser o sítio onde pior lidamos com a opinião dos outros. Saramago disse o que disse. Em última análise, é ele o responsável pelas afirmações que teve. Que temos nós que ver com isso? É triste, mas há mais gente a ler a Bíblia por causa de Saramago do que por causa de todos os líderes da igreja portuguesa juntos!
Quando era miúdo era fã do Herman. Escapava-me à cama para ver os programas quando eram durante a semana. Achava um piadão aos skectches e ao humor corrosivo. Lembro-me de sketches polémicos, como a última ceia ou outros relativos a Fátima, entre outras coisas. Sempre achei estranho que fôssemos tão fãs do Herman quando ela fazia humor com a igreja católica, e tão contra o mesmo quando ele fazia sketches humorísticos com Deus. Então mas isto é que é Fair-Play? Lembro-me muito bem de um sketch em que Herman interpretava o papel de Deus, e alguém fazia de Baptista Bastos, um ateu convicto. Que grande sketche! Acho que o próprio Deus se terá rido à brava. Mas nós não. O Herman estava a 'gozar' com Deus! Ultraje! Blasfémia! Mas o delírio voltava com um Sketche sobre Fátima ou os católicos. Muito coerente...
Isto a propósito do sabermos lidar com as críticas, as opiniões e o sabermos rir de nós próprios. Alguém critica a Bíblia? Preocupemo-nos mais em informar as pessoas e em responder às suas necessidades (através da Bíblia) do que em fazer grandes defesas teológicas. A Bíblia defende-se a ela própria. Alguém brinca com a Igreja ou com Deus? Tenhamos Fair-Play para perceber e até agradecer, porque só é trazido para o humor aquilo que é relevante. Alguém se levanta contra a Igreja? Antes de respondermos vejamos se não há razões para isso... às vezes, até eu próprio tenho vontade de me levantar contra a Igreja. Não contra a Igreja que Deus instituiu, mas a Igreja que os homens tornaram um antro de intolerância, de ilicitude, de interesses e de irrelevância.
Depois de tantos erros históricos que já cometemos enquanto Igreja nos últimos (largos!) séculos, vamos evitar cometer mais um: virar as costas à sociedade só porque não gostamos do que ela diz de nós... até porque este seria o pior erro histórico de todos os tempos...
Fruto do estudo que deu origem à palavra que partilhei ontem na minha igreja, cá está 'Caim, Saramago e Deus', tudo junto no mesmo saco!
É importante situarmos esta discussão que se gerou na passada semana acerca das declarações de Saramago. Tudo isto surge porque Saramago vê na história de Abel e Caim traços de ruindade de Deus e alguma injustiça no comportamento de Deus para com Caim. Mas será que isto corresponde à verdade? Será que é exactamente assim? Será que Caim não fez nada para que Deus não aceitasse a sua oferta? Estaremos perante um mero capricho de Deus?
O que aconteceu a Caim, importa dizê-lo, não foi fruto do destino, nem sequer das circunstâncias. Não é reportado que Abel e Caim tivessem tido quaisquer problemas anteriores a este. Não é reportado que Caim tivesse uma má natureza, por assim dizer. Até as actividades a que estes dois se dedicaram eram das mais nobres (pastorícia e agricultura) da época e sem grandes diferenças de estatuto entre si. Caim fez uma escolha e Abel fez outra. Essa foi a diferença, mas já lá vamos.
A atitude de Deus também foi inatacável. Limitou-se a responder à atitude de Caim. Colocar o ónus do que aconteceu nesta história em Deus é de uma injustiça tremenda. Abel trouxe o melhor do que tinha (as primícias, ou seja a primeira e mais importante parte do seu trabalho), enquanto Caim trouxe uma simples parte. A diferença da qualidade entre o que Caim e Abel trouxeram é feita biblicamente por omissão. Ao referir-se à oferta de Abel como 'primícias' e ao omitir a qualidade da oferta de Caim, é-nos dado a entender que Abel terá sido excelente, enquanto Caim apenas normal. E quanto ao que é a normalidade aos olhos de Deus, apenas refiro uma passagem: 'Mas visto que és apenas morno – nem quente nem frio – hei-de vomitar-te da minha boca!’ Está tudo dito, não está?
Há que assinalar como Caim transformou uma questão que era sua e da sua atitude, ou, quando muito, uma questão entre ele próprio e Deus, numa questão pessoal entre ele e o irmão. Só assim se explica que tenha partido para o assassinato do seu irmão.
Colocar em Deus o ónus desta história é desonestidade e incapacidade de interpretação do que está escrito. Caim escolheu. Mesmo depois de Deus lhe ter aberto as portas ('se fizeres o que é bom serás aceite e feliz'), mesmo depois de Deus ter colocado as cartas em cima da mesa ao dizer-lhe quais seriam as consequências de se deixar dominar pela maldade. Caim escolheu. Escolheu a oferta que deu, a 'normal' oferta que deu. Escolheu assassinar o irmão, mesmo sabendo que isso teria tremendas consequências. Escolheu não ouvir Deus nem os seus conselhos. Seguiu um caminho que geralmente leva à ruína: o não sermos ensináveis. Escolheu a falsidade ('irmão, vamos dar uma volta?') e a mentira (Não sei onde ele está, Deus! Por acaso, serei eu guarda dele?'). Caim fez uma série de escolhas erradas, mas o mais interessante ainda nem sequer é isso...
Deus decidiu proteger Caim. Ao medo deste em ser atacado e morto por outros povos (pergunta do milhão de €: que outros povos seriam estes? Então afinal o mundo não era só habitado por Adão, Eva, Caim e Abel por esta altura?), Deus respondeu com a promessa de que quem atacasse Caim teria um castigo sete vezes superior ao seu. Incrível. Parece-me um pouco da demonstração 'antecipada' da graça e do amor que caracterizam a natureza divina. Apesar de Caim ter nitidamente errado de forma consciente e premeditada, Deus escolheu protegê-lo da maldade que o próprio Caim iniciara. Que tremendo...
A única coisa de que trata esta história é da atitude. Da de Abel e da de Caim. De um Abel que trouxe algo de muito bom, e de Caim que trouxe apenas algo. Esse é o nosso desafio. Normalidade ou excelência? Apenas o que é requerido ou milha extra? O que é pedido ou tudo o que há em nós? São dúvidas que se decidem nas coisas do dia-a-dia. E, já agora, deixem-me reescrever aquele dito português. «Dos extravagantes rezará a História.»
Nesta frase se pode resumir uma boa parte da nossa vida. Andamos cerca de 20 anos a acumular sonhos, objectivos, projectos de realização pessoal, a estabalecer metas, umas mais realistas e outras menos, a projectar ilusões para o futuro, a pensar no sonho em que a nossa vida se tornará quando formos independentes, doutores ou engenheiros, chefes de família, felizes e realizados, tanto na área financeira, como na profissional, ou até mesmo na familiar. E depois andamos 60 anos à procura da fuga desses mesmos objectivos, porque nos queremos esquecer de todos eles...
Quando éramos novos (até parece que sou muito velho) a ilusão era o nosso nome do meio, mas a rotina bolorenta em que a nossa vida se tornou teve o condão de sugar toda a criatividade, toda a ilusão, todo o sonho, toda a vitalidade. Hoje, resumimos a vida à procura de darmos melhores condições aos nossos filhos, às nossas esposas, aos nossos maridos, ou ao conseguir pagar a gigantesca conta em que a nossa vida se tornou. E onde morreu o sonho? Onde morreu o entusiasmo? Onde morreu o ideal? Já essa 'grande' banda de seu nome BAN (mais conhecida por ter sido a banda de João Loureiro, filho de Valentim Loureiro e ex-presidente do Boavista) cantava um pedido simples, 'dá-me um ideal'.
Hoje o mundo move-se com base no compromisso e no medo. No compromisso que assumimos de tentar dar o melhor àqueles que nos são queridos e no medo de que o contrário disso aconteça. Problema 1: o melhor que nos é apresentado, e que se resume a dinheiro para pagar faculdade aos filhos, boa casa, bom carro, roupa de marca, casa de férias, férias no estrangeiro, e tudo o que mais quiserem, não é, na realidade, o melhor da vida. Problema 2: quando descobrimos que abdicámos dos nossos sonhos, valores e princípios, já é tarde de mais e estamos prontos para uma única coisa: a reforma.
Não peço que me deêm um ideal, mas deêm-me o entusiasmo de fazer alguma coisa apenas porque existe um tremendo prazer nisso. Não me peço que devolvam todos os sonhos, mas que pelo menos me devolvam a ideia de que as oportunidades estão lá, basta agarrá-las e ser diligente com elas. Porque não é apenas o conhecimento que faz o mundo avançar. É a paixão , é o entusiasmo, é a garra. Por isso é tempo. É tempo de encontrar o entusiasmo perdido. É tempo de desfrutar do que, mesmo sendo pequeno, é tão fantástico! É tempo de desfrutar das nossas famílias e dar-lhes mais do que somos e não do que temos. É tempo de desfrutar dos nossos amigos e ser verdadeiramente ajuda nas suas vidas. É tempo de assumir que temos responsabildiade social, e de irmos pela rua dizer que a vida é entusiasmante, fantástica, e foi feita para ser vivida na sua plenitude. Porquê? Apenas porque temos a promessa de alguém que um dia disse que era possível viver, e não apenas de uma forma normal, mas de uma forma abundante...
Há coisas que nos ultrapassam. Certamente. Mas há coisas pelas quais somos ultrapasados. E isso dói mais do que a primeira, não dói?
Há coisa que nos saem do alcance. Há coisas que nos fogem sem que possamos fazer algo para o evitar. Mas também há coisas que nos escapam por negligência, por incapacidade, ou porque as damos por garantidas. E é essa a destrinça que importa fazer.
Tenho dias em que me apetece processar pessoas por estagnação por negligência. Tenho outros dias em que me apetece processar a mim mesmo pelas mesmas razões. Se Deus nos deu condições, se Deus nos deu talentos, se Deus nos deu um cérebro (e que cérebro!), se Deus nos deu tudo o que precisamos, de que estamos à espera para alcançar o que está proposto à nossa frente.
Tenho a certeza que quem lê estes parágrafos estará a dizer ‘é certo, Ruben, tens toda a razão!’ Eu não quero ter razão! Eu quero é que nos deixemos de falinhas mansas e desculpas esfarrapadas. Eu quero é que sejamos homenzinhos e mulheres à séria, capazes de fazer tudo o que for preciso até não nos restar uma gotinha de sangue! Afinal, que tipo de gente é que somos? O que nos distingue? O que nos torna diferentes? O que apresentamos de forma viva à sociedade? Padrões de comportamente moral? Só? Que fraca ideia de Evangelho que andamos a ‘distribuir’ por onde passamos…
Ao longo de décadas, de séculos, alguém tentou e conseguiu reduzir cristianismo a um padrão de comportamento moralista e moralizador. E fê-lo com um tremendo sucesso. A Igreja é mais conhecida pelo não do que pelo sim. Não é isto triste? Mas onde é que se foi buscar esta ideia? Quem concebeu igreja como a moralizadora da sociedade perdida? Quem concebeu esta ideia peregrina? Não sei. Ou pelo menos acho que não sei. Mas sei que está na hora de a deixar de lado. Abram-se as portas e venham daí. Venham daí os mais desfavorecidos e os mais desgraçados, porque esses é que precisam do favor e da graça. Venham daí os famintos e os sem-abrigo, porque esses é que precisam de alimento e tecto. Venham daí os escorraçados e os oprimidos, porque esses é que precisam de apoio e liberdade. Venham daí, porque as portas estão abertas!
Há coisas que nos ultrapassam? Há, certamente. Mas a negligência com que encaramos o Evangelho e a Sua causa palpável na terra tem de acabar! Há coisas que nos ultrapassam? Há, certamente. Mas não há coisas pelas quais sejamos ultrapassados, nomeadamente pela antiga, bolorenta, limitadora, tradicionalista e castradora maneira de pensar. Há coisas que nos ultrapassam? Há, certamente. Mas está na hora de rebentar com as paredes que se construiram durante anos, e que serviram para não contaminar gente que nem sonhava que já estava contaminada pela negligência com que tratou o Evanglho, ao falhar numa mensagem tão clara como central: que a graça e o perdão de Deus não conhecem limites ou fronteiras! Há coisas que nos ultrapassam? Há, certamente. Mas já chega! Porque aos mornos a História não fará jus, mas dos que, quentes ou frios, assumirem na plenitude o que são e para o que vão! Um NUNCA MAIS carimbado em cima da Igreja morna!
Sejamos duros. O Evangelho é demasiado importante, demasiado caro, demasiado bom para ser desperdiçado neste circo que montámos nestes últimos tempos. E Tu, Deus, perdoa-nos se errámos aqui e ali. Olha para nós e tem compaixão. Faz-nos UM, em relevância, sentido de responsabilidade e amor. É só isso que eu Te peço!